
Tempos difíceis são os que se vivem no sector corticeiro.
A actual crise financeira e a dificuldade das empresas no recurso ao crédito bancário, tem colocado muitas empresas à beira da falência económica.
Muitos serão os factores que contribuíram para o drama actual, no entanto a dificuldade de obtenção de financiamento de muitas empresas, junto das instituições bancárias vem por a nu a forma como se obtiveram fabulosas fortunas neste sector.
O tecido empresarial do sector corticeiro é predominantemente composto de pequenas e médias empresas, onde a empresa sempre se confundiu com o patrão; pseudo-empresário de baixa formação e sem qualquer sentido de gestão, os ganhos da empresa sempre transitaram directamente para o seu bolso com a consequente descapitalização da empresa.
A maioria das empresas, principalmente as que se dedicavam à produção rolheira, viveram durante décadas à sombra da não existência de stocks acumulados, ou seja, tudo o que era produzido estava vendido por natureza e inclusive havia dificuldade em satisfazer as encomendas.
Esta situação de domínio no mercado mundial de vedantes, foi confortavelmente aproveitada até que se introduziu no mercado vedantes alternativos, mais baratos e fortemente concorrenciais às rolhas de mais baixa qualidade.
De repente, alguns industriais do sector viram a procura dos seus produtos fortemente reduzida, originando a acumulação de stocks em rolhas de média e baixa qualidade, que serviam essencialmente de vedantes para vinhos correntes, esta situação começou a originar alguns desequilíbrios económicos.
Apesar de algumas campanhas internacionais para a promoção da rolha de cortiça, a verdade é que este produto tem sido fortemente contra-atacado pelas indústrias de alternativos.
Há empresas que têm stocks de rolhas no valor de milhões de euros e não sabem que destino lhes hão-de dar, se juntar-mos a tudo isto a situação actual de crise económica, que provoca fortes contenções de procura, não será exagerado dizer que o sector se encontra perto da ruína.
O sector corticeiro tem funcionado como o principal motor económico, de grande parte do concelho da Feira e qualquer situação de falência generalizada poderá provocar uma implosão social sem precedentes.
O sector emprega aproximadamente 8000 pessoas de forma directa, mas é sabido que mais alguns milhares dependem indirectamente da indústria corticeira.
Existe o receio real, de muitas unidades fabris encerrarem as suas portas nas férias de Natal e não voltarem a abrir em Janeiro.
Se entretanto nada for feito e não for retomada a confiança na economia, o mais certo é que este concelho que actualmente já comporta índices preocupantes de desemprego, venha a ser confrontado com uma grave crise social à semelhança do que se viveu no Vale do Ave, com a indústria têxtil durante a década de 90.
Se no Vale do Ave a situação era quase inevitável, principalmente pela forte concorrência dos têxteis oriundos de países de economias emergentes, mas também pelo fraco investimento que foi feito na modernização da indústria, que era rudimentar e antiquada ao nível dos mecanismos de produção. Na indústria corticeira o problema não passará por certo pela modernização do sector, que em algumas áreas é líder mundial e tem fortes componentes de inovação associadas.
Um dos maiores problemas que actualmente afligem os empresários é a dificuldade em obter matérias-primas de boa qualidade. A diminuição da qualidade e da quantidade de cortiça que é produzida em Portugal, deve-se essencialmente à falta de políticas florestais para a conservação e valorização do montado de sobro. Durante décadas a exploração de cortiça foi feita intensivamente sem que se renovasse a floresta de sobreiro, não houve novas plantações e entretanto as que se fizeram recentemente só produzirão algum efeito a muito longo prazo ( o sobreiro é uma árvore cuja exploração económica só é rentável ao fim de 40/50 anos, o que não é muito encorajador).
Isto tem levado os proprietários de grandes herdades no Alentejo a direccionarem o seu negócio para a criação e exploração de gado, que além do mais são fortemente subsidiadas e não exigem grandes recursos em mão-de-obra. Para agravar ainda mais a situação a presença de grandes manadas junto dos sobreiros é muito nefasta para as árvores, levando inclusivé à sua morte.
Outro problema foram as vagas sucessivas de incêndios de Verão, que se viveram nos últimos anos e que dizimaram grandes áreas de extracção corticeira (principalmente no Algarve), assim como as alterações climáticas que têm tornado muito mais secas algumas regiões tradicionalmente produtoras de cortiça.
Ora havendo pouca humidade nos solos, alguns insectos acabam por se infiltrar na casca do sobreiro na fase de crescimento da cortiça, depositando aí as suas larvas que posteriormente degradam a qualidade da cortiça.
A construção de grandes obras públicas como a auto-estradas, a barragem do Alqueva, empreendimentos turísticos e futuramente o novo aeroporto foram também altamente responsáveis pela destruição de grandes áreas de montado.
Resumindo chegou-se a uma situação quase insustentável, que ainda é mais agravada pela grande especulação que um grande grupo económico do sector faz junto dos produtores, açambarcando para si (directa ou indirectamente) a quase totalidade da matéria prima deixando muito pouco para os restantes, o que os obriga ou a adquirir o que sobra , por norma cortiça de fraca qualidade, ou a recorrer a mercados como Espanha ou Marrocos para suprir as suas necessidades de matéria-prima, ou então em alternativa a adquirir de forma subserviente ao grande grupo económico aquilo de que precisa.
Ou seja, é um sector completamente desregulado que vive sob a ditadura do mais forte, que predomina e monopoliza todo o circuito, tanto da matéria-prima como do produto final.
Outras razões haverá certamente, para justificar toda a derrocada que se vislumbra no horizonte e com honestidade não sou capaz de apontar soluções miraculosas para revitalizar este sector.
A única forma que eu julgo ainda poder adiar a morte deste sector por mais algum tempo, é uma forte intervenção estatal ao nível da regulamentação da exploração florestal do sobreiro, podendo inclusive quebrar as leis do mercado da oferta e da procura, regulando tectos máximos nos preços de venda de cortiça, algo que alguns empresários já tentaram pactuar entre si, mas que não conseguem levar por diante devido ao furacão monopolista do sector que persiste em levar por diante a sua empreitada de engolir tudo e todos.
Outra solução seria atenuar ligeiramente as actuais restrições ao consumo de álcool para os condutores, que tem sido co-responsável pela diminuição do consumo de milhões de garrafas de vinho em todo o mundo diariamente.
Pelo que se percebe das estatísticas, as fortes campanhas anti-álcool não têm produzido grandes resultados na prevenção rodoviária.
PUBLICAÇÃO : O GADANHA
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